quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Quilombos: Desenvolvimento etno Sustentado

DESENVOLVIMENTO ETNO SUSTENTADO PARA OS QUILOMBOS 
Artigos escritos em 2000 quando participei do GTI QUILOMBOS do GF
Eng. Agr. Valdo França

Na busca de soberania e auto preservação, negros libertários ocuparam, já a partir do final do século XVI, terras "sem dono", marginais à economia da época, distantes e ou de difícil acesso. Os isolamentos geográficos, econômicos e sociais das comunidades formadas, os quilombos, fizeram com que desenvolvessem estilo de vida peculiar, adaptada aos recursos ambientais existentes. Este estilo foi forjado da interação do negro com a natureza, sustentado pelo conhecimento e valores ancestrais da cultura africana, européia, aborígine e dos mestiços que habitavam o Brasil da época.
A Fundação Palmares já identificou 743 comunidades remanescentes de quilombos existentes no Brasil, mas entidades e estudiosos do tema acreditam que este número pode estar entre 2000 e 5000. Até o presente, apenas uma minoria próxima de 30 destas comunidades receberam o titulo de suas terras, um direito assegurado na Constituição Federal. Enquanto o processo de titulação das terras segue o caminho demorado da burocracia, o governo e a sociedade devem atentar para o estado de pobreza, esquecimento e distanciamento do atendimento público em que se encontram estas comunidades.
As comunidades quilombolas são detentoras de conhecimentos e elementos culturais representativos de um Brasil do passado, percebidos nas tradições religiosas, no respeito à família e nas formas tradicionais e coletivas de fazer, festejar e viver. A vida bucólica e o isolamento dessas comunidades possibilitaram a preservação de extensas áreas naturais, amostras de biomas importantes para a conservação da biodiversidade, hidrografia e da paisagem de muitas regiões do Brasil.

O status de patrimônio histórico-cultural, a importância econômica do saber, do fazer e do viver autóctone e da natureza preservada, as limitações naturais dos ecossistemas e das legislações ambientais, juntamente com o querer e o sonho dessas comunidades, devem embasar e nortear a formulação do modelo de desenvolvimento étnico sustentado para os quilombolas.
O modelo de desenvolvimento.

As comunidades quilombolas estão pressionadas por fazendeiros, grileiros, empreendedores do eco-turismo, e pelo rigor das leis ambientais, que limitam o uso de suas terras. Na formulação do modelo de desenvolvimento sustentado para os quilombos, é mister compreender que a redenção sócio econômica dessas comunidades não passa necessariamente pela forma da agricultura convencional, altamente tecnificada, despersonalizada e de produção em massa.
É comum as terras quilombolas estarem mais distantes dos mercados consumidores e se localizarem dentro ou no entorno de áreas de preservação. O relevo, a hidrografia, o clima e a qualidade de solo, muitas vezes, limitam a mecanização e o uso de insumos químicos, exigindo mais trabalho manual, o que pode resultar em menor produtividade e em custos mais elevados, comparativamente às áreas da agricultura convencional. Além disso, a experiência quilombola é marcante na pequena agricultura, pecuária e indústria artesanal familiar, no extrativismo, caça, pesca e manufatura de bens, onde produzem praticamente tudo o que consomem e utilizam na subsistência do dia-a-dia. São auto-suficientes nas construções de suas moradias, na produção de farinha, óleos vegetais, derivados de milho e cana de açúcar.

A produção sustentada para os quilombolas deve seguir, preferencialmente,o modelo agro silvo pastoril, contemplando a produção de alimentos de origem vegetal e animal, de madeira e outros produtos florestais, necessários para o suprimento alimentar, moradia, instalação animal e artesanato.
  A produção para o comercio deve ser verticalizada através do artesanato e das pequenas indústrias, no intuito de agregar valor à produção primária, possibilitando competitividade mercadológica e o máximo de inclusão do trabalhador local no processo produtivo. Nas situações em que o modelo de agricultura convencional for desejado e tiver potencialidade econômica de competir e subsistir no mercado, é importante que se mantenha a perspectiva da diversidade do sistema produtivo, para diminuir possíveis vulnerabilidades da comunidade.
Num mundo globalizado, a cultura autóctone quilombola se constitui em atração de significativo valor econômico. É importante destacar o grande potencial dessas áreas para atividades turísticas de interesse étnico-cultural e ambiental. A beleza cênica da natureza se soma à riqueza cultural da vida quilombola, permeada pela variedade musical, culinária, artesanatos, festas religiosas e causos, que constituem matérias primas de valor inestimável para o turismo.
Se pelo velho olhar da economia simplista de mercado, as áreas quilombolas apresentam muitas limitações competitivas, o mesmo não acontece pelo novo olhar sistêmico das formas de desenvolvimento étnico sustentado. O olhar sistêmico compreende e considera a riqueza de elementos culturais, históricos e ambientais que permeiam a existência quilombola no mundo atual.
O vislumbrar de mercado para a redenção quilombola deve considerar as buscas simbólicas do consumidor do mundo moderno. Esse consumidor segue o caminho do "politicamente correto", "solidário" e "socialmente justo".Considera as relações do homem com a natureza, a procedência do produto, a ética e a origem de quem produz, a qualidade e a sustentabilidade da produção. A valorização e os bons resultados econômicos no mercado internacional para produtos rotulados como "limpo", "orgânico", "produzido no Xingu", "Produção sustentada na Mata Atlântica, Amazônia", têm sido fundamental para adesão de populações nativas na preservação do meio ambiente, respeitando a cultura autóctone, com apoio e subsidio de ongs e agencias ambientais de paises ricos.
A saga centenária quilombola de resistência contra a discriminação e a injustiça e sua habilidade de habitar em harmonia o meio ambiente, faz com que o nome quilombola se constitua numa marca promissora no mercado de consumo responsável e solidário, voltado para valores éticos, étnico-culturais e ambientais.
A marca "quilombola" deve despertar o interesse e o apoio de entidades negras, ambientalistas, sindicatos, cooperativas de consumo e outras entidades populares da zona urbana, agregando valor e competitividade aos produtos, e por fim, viabilizando economicamente a produção dessas comunidades.

Para que o sonho da justiça, dignidade e autonomia sócio econômica se concretize democraticamente na totalidade do espaço quilombola brasileiro, é necessário compreender que o processo produtivo e a tecnologia mais adequada para se levar a eles, é aquela que é desejada, entendida, apropriada e reproduzida por eles no dia-a-dia, e ao mesmo tempo seja ambientalmente sustentável. 

Idéias e propostas alienígenas, caras e insustentáveis ou imitativas do sistema dominante, podem significar o fracasso de políticas bem intencionadas, o desperdício de recursos públicos escassos e o total descrédito da sociedade com relação às possibilidades empreendedoras dessas comunidades. Assim sendo, todo o processo de intervenção pública na vida dos quilombos, deve ser discutido extensivamente com os protagonistas maiores de seu presente e futuro.



Plano diretor para quilombos deve ser a base do desenvolvimento

As comunidades quilombolas sobreviveram as discriminações, as injustiças, a invisibilidade e ao total abandono do poder público ao longo da história, mantendo sua integridade cultural de origem étnica africana. Os quilombolas retiram, transformam, cultivam e produzem praticamente tudo o que necessitam no convívio harmônico com a natureza. Essa vida bucólica e harmoniosa, fez dessas comunidades, exemplos vivos de sustentabilidade ambiental, e a mais de um século, estão servindo de escudo protetor contra a expansão da agricultura e da pecuária, sobre amostras de biomas de relevante interesse preservacionista.
A vida destacada quilombola fez com que desenvolvessem e preservassem formas peculiares de produzir, viver e festejar, enraizados na ancestralidade, no chão natal, e na forma coletiva de pensar e agir. Seus bens materiais e imateriais são garantidos pela Constituição federal, não existindo possibilidade de existência quilombola sem o domínio do território, e plenitude cultural.
Como guardiões de parte do patrimônio histórico-cultural e ambiental do Brasil, eles tem direitos e merecem um modelo de desenvolvimento especial, que respeite a etnicidade, e que também seja ambientalmente sustentado, como mostra a historia da existência quilombola.
O etno desenvolvimento de quilombos é um compromisso e também um grande desafio para o governo Lula. Ao contrario dos "Sem Terra", os quilombolas já possuem suas terras, mas necessitam de regularização, credito apoio técnico e mercado diferenciado, para ter assegurada a paz, a tranquilidade e os meios para produzir e prosperar. O modelo de etno desenvolvimento sustentado para os quilombolas, não pode ser confundido com o modelo de assentamento ou desenvolvimento convencional, já que implicam em novos paradigmas, demandas e compreensões. Muitos assentamentos de reforma agrária e ocupação de terra organizados pelos governos e por particulares no Centro Oeste e na Amazônia foram abandonados devidos aos fracassos financeiros e a destruição ambiental que produziram. Não temos o direito de preconizar processos que desprestigiem a cultura local e que levem riscos à sustentabilidade ambiental e à auto-suficiência destas comunidades. A forma de produzir quilombola é baseada na diversificação de atividades, buscando em primeiro plano o suprimento das necessidades de sobrevivência, e em segundo plano as trocas comerciais. A produção deve ser através da agro ecologia, contemplando em primeiro plano as atividades agro silvo pastoris que dão suporte ao consumo e as demais demandas locais. Os produtos com qualidade e selo "quilombola", devem ser dirigidos aos mercados que dão valor a sustentabilidade ambiental, a solidariedade social e a cultura negra.


Plano Nacional de Etno desenvolvimento Sustentado
Antecedendo a formatação do plano nacional, será necessário realizar censo, inventario e diagnostico das comunidades, dimensionar e mapear a situação sócio econômica, a infra-estrutura existente, e as necessidades mais preeminentes para cada uma delas. Levantar potencialidades e vocações das regiões onde se localizam comunidades, aproveitando estudos e cartas de zoneamento econômico ecológico já existentes nos órgãos federais e estaduais. Prognosticar para curto, médio e longo prazo, as dimensões e potencialidades de mercado nas esferas nacional e internacional para os produtos e serviços com a marca "quilombola". Pesquisar e listar empresas atacadistas e varejistas, entidades culturais, ambientais, sindicais e de consumo propensas a firmação de parcerias e suporte comercial à marca "quilombola".
O Plano Nacional de Etno desenvolvimento deve prever a instituição de: um fundo especial para promoção da marca "quilombola", realização de projetos e parcerias com ONGs, e um sistema unificado de fiscalização, controle técnico, financeiro e avaliação dos resultados referentes as parcerias, programas e projetos realizados ou em realização.


Programas Regionais de Etno desenvolvimento Sustentado
As especificidades e afinidades referentes a clima, solo, recursos ambientais, vias de acesso, transporte, mercado e cultura, constituem os elementos básicos para a derivação do plano nacional em programas regionais de etno desenvolvimento sustentado para os quilombos, composto em duas vertentes principais: infra-estrutura básica e inclusão econômica.


Infra-estrutura básica
O acesso a água potável, saneamento e educação é condição primordial para o desenvolvimento, devendo receber atenção prioritária da ação governamental, viabilizando a democratização do abastecimento de água, a construção de banheiros de alvenaria, fossas sépticas, tratamento anaeróbico de efluentes, a separação, reciclagem e destinação adequada de lixo, e a construção de escolas em todas comunidades no prazo mais curto possível. As escolas de ensino básico devem afirmar os valores da cultura quilombola e do etno desenvolvimento sustentável. A assistência a saúde deve ter especificidade étnica, com equipes múltiplas atuando nas comunidades, e com o suporte de postos, unidades básicas e ambulâncias. A perenidade das estradas vicinais, a instalação de telefones comunitários, a melhoria habitacional e o acesso a eletricidade são outros quesitos importantes da infra-estrutura.


Inclusão econômica
A vertente dos Programas Regionais voltado a inclusão econômica deve priorizar a capacitação e animação dos quilombolas para, organização de cooperativas como base da organização empreendedora,a afirmação do conceito e valores do etno desenvolvimento sustentável, e a organização e gestão de negócios. A criação de equipes técnicas de extensionistas rurais, treinadas para entender, considerar e responder as demandas conceituadas pelo etno desenvolvimento sustentável, será fundamental para garantir o retorno dos investimentos financeiros investidos e a inclusão significativa dessas comunidades a vida econômica do país.
Plano Diretor do quilombo
Cada comunidade deve construir seu plano diretor, baseado na vocação e potencialidade de uso do solo e de outros recursos naturais sob seu domínio, dando prioridade para a preservação da hidrografia, sítios históricos, biodiversidade, equilíbrio ambiental e necessidades geradas pelos projetos locais de habitação, educação, lazer e geração de ocupação e renda. O plano diretor local ordena e reordena o uso e ocupação do solo, possibilitando o planejamento da expansão urbana com menores custos, mais facilidade e eficiência no abastecimento de água, tratamento condominial de esgotos, preservação e enriquecimento de áreas de potencial extrativista, aproveitamento e potencialização do patrimônio natural, histórico e etnocultural para desenvolvimento do turismo e o desenvolvimento das atividades agro silvo pastoris, artesanais e de transformação de produtos locais. Os projetos e planos de negocio em cada comunidade, devem estar sincronizados e harmonizados com o Programa Regional de Etno desenvolvimento Sustentado.
Controle social
A qualidade e o compromisso com as premissas da etnicidade, da sustentabilidade e do protagonismo quilombola no processo da formulação e implantação das políticas devem ser rigorosos, cabendo ao estado a fatia maior da responsabilidade, informando e capacitando as comunidades para participar na formulação e fiscalização dessas ações. Para esse fim, as comunidades necessitam conhecer e entender o conceito de etno desenvolvimento sustentado, as leis que garantem seus direitos, a estrutura e competências dos órgãos que atuam nas áreas de interesse, a importância histórica, cultural e econômica dos remanescentes, e a importância da organização e representação das comunidades nas esferas local, estadual e nacional.


Desenvolver com integração do negro desenraizado

A construção de um plano nacional de desenvolvimento etno sustentado para quilombos é um passo importante nas políticas reparatórias para o povo negro brasileiro. Sua implementação minimizará o sofrimento dos afros brasileiros que ainda resistem no campo, e poderá possibilitar o retorno ordenado de quilombolas e seus descendentes.
Vítimas do êxodo rural e do desemprego urbano, quilombolas desenraizados habitam acampamentos de sem terra nas beiras das estradas, cortiços, favelas, lixões e outras áreas insalubres do meio urbano. O retorno ao quilombo será a re-libertação e o resgate da alma negra brasileira, o reconhecimento e afirmação da identidade ancestral e a reconstituição da família negra perdida nos caminhos da injustiça. É uma forma eficiente e sem traumas para o Brasil desinchar os acampamentos de sem terra, com menores investimentos que qualquer tipo de assentamento de reforma agrária, já que os quilombolas são proprietários de grandes glebas de terra, necessitando apenas que o governo regularize seus títulos fundiários, e ofereça suporte e meios para o desenvolvimento.
Alem de já possuírem suas terras, os quilombolas formam comunidades rurais de caráter étnico, com tradições e valores ancestrais, formas de produzir e viver coletivo, e exemplares em sustentabilidade ambiental. Essas comunidades receberão de braços abertos seus parentes, dando o apoio e a solidariedade de irmãos, necessários para a fixação do homem urbano ao meio rural. Será mais fácil e mais barato para o país, o retorno dos desenraizados aos quilombos, que a fixação de trabalhadores urbanos sem tradição e raízes no campo, em assentamentos perdidos no espaço e no tempo, sem história e sem o apoio de uma coletividade.

O censo dos quilombolas
Para o Brasil conhecer o potencial de inclusão sócio econômica de uma política pública de intervenção nos quilombos, será necessário que o censo a ser levado a essas comunidades, pergunte as famílias quilombolas, quais são os filhos, netos, irmãos e sobrinhos que estão na cidade, a quanto tempo saíram da comunidade, quais são suas ocupações, suas idades, a situação sócio econômica atual, e se conhecem o interesse deles em voltar às suas origens. Outra pesquisa poderá ser efetuada no cadastro dos candidatos ao programa de reforma agrária, procurando saber se o mesmo tem origem em alguma comunidade negra remanescente de quilombo, quais são suas habilidades, e se tem disposição e interesse em retornar ao chão natal. Esses trabalhadores desenraizados e seus descendentes devem integrar uma lista especial, a ser contemplada nos programas de desenvolvimento dos quilombos, suprindo demandas de mão de obra necessária aos projetos que forem surgindo.

Tecnologia habitacional para os quilombos
O desenvolvimento nos quilombos deve respeitar a cultura local e ser plenamente democrático. O fato da maioria das comunidades terem resistido com integridade cultural as adversidades apresentadas ao longo da história, é mostra convincente da eficiência e sustentabilidade de seus saberes e fazeres.
A construção de taipa e telhado de palha, a base de materiais renováveis existentes na própria comunidade, é uma das formas tradicionais dos quilombolas construírem suas casas. Sabe-se que, após alguns anos, essas habitações perdem qualidade, deixando a desejar em conforto e salubridade para seus moradores. A substituição destas casas por construções em alvenaria e telhado de fibrocimento, porém, é uma forma invasiva insustentável, pois a grande maioria dessas populações não possui renda suficiente para adquirir os materiais e dependerão de paternalismo externo para terem acesso a esse modelo. Outro aspecto negativo é o baixo conforto ambiental no interior das habitações construídas com tijolo cerâmico e telha de fibrocimento, esses materiais não oferecem isolamento térmico adequado para as regiões tropicais quentes.
É essencial apresentar aos quilombolas maneiras de melhorar a qualidade e durabilidade das taipas e telhados, e introduzir novas opções e formas de construir. Existem inúmeras tecnologias de baixo custo disponíveis no viés da bio-arquitetura, em voga na construção de "eco-villages" em todo planeta, onde materiais locais de caráter renovável, biodegradáveis e de custo acessível, possibilitam belas e confortáveis habitações. Tecnologias artesanais a base de solo e fibras vegetais, ferro e cimento, solo e cimento, solo e cal, cimento e fibras vegetais, propiciam a construção de paredes, pisos, calçadas, telhas, telhados, caixas d'água, tanques de roupa, pia de cozinha, canaletas, cochos, fossas sépticas, filtros anaeróbicos para efluentes e muitos outros bens importantes para a vida rural. O mais importante é que as novas tecnologias sejam plenamente compreendidas, apropriadas e reproduzidas pelas comunidades locais.
Melhor que disponibilizar poucos milhares de habitações alienígenas e desconfortáveis a uma minoria quilombola, é enriquecer o saber local das comunidades, dando apoio através de cursos, assistência técnica e bolsas de materiais de construção, para que uma maciça maioria desses brasileiros possa por si mesma construir suas casas, o saneamento e outros confortos que necessitam ou desejam. Isso tudo sem negar o direito deles usarem alvenaria e outras formas construtivas, na medida em que decidirem por seu livre arbítrio e possibilidade.

Tecnologia agrícola para os quilombos
Muitos políticos, administradores e técnicos da área pública e dos movimentos populares se empolgam com as ofertas no campo da tecnologia moderna sofisticada. Acreditam e preconizam, simploriamente, a adesão e o acesso a essas tecnologias, como formas determinantes de se promover o desenvolvimento das comunidades indígena, cabocla e quilombola.
Algumas comunidades quilombolas podem almejar tratores para facilitar a lida diária, mas uma análise e um debate abalizado podem mostrar que tal tecnologia não é a mais adequada para aquele meio, e que o mesmo capital pode ser utilizado na aquisição de reprodutores bovinos, caprinos e equídeos e tecnologias de pequeno porte, como carroças e equipamentos a base de tração animal, pequenas carretas e cavalos mecânicos, pequenos e médios moinhos de farinha e cana de açúcar, fabriquetas de doce, equipamentos para pequenas irrigações e outros, poderão servir a mais pessoas, socializando recursos e condições para o desenvolvimento democrático da comunidade.

A tecnologia tem a ideologia de quem a preconiza
A tecnologia que se apresenta ao desenvolvimento da produção e ao conforto humano, nem sempre liberta e possibilita a igualdade e a fraternidade entre os homens.
A FUNAI introduziu nos anos 70, um programa de plantio de grãos em grandes áreas de cerrados arenosos das reservas xavantes, no vale do Araguaia. Esse grupo guerreiro destemido foi o até esta época, o maior entrave à invasão dos fazendeiros sulistas na região. Viviam bem adaptados e auto-suficientes, eram notáveis pela saúde e força física que apresentavam. Suas aldeias eram bem estruturadas, populosas e lideradas por caciques notáveis, na defesa de suas terras e direitos.
A FUNAI levou tratores, adubos químicos e agrotóxicos para os xavantes saírem do "atraso" e da vida "selvagem", para adentrarem na "modernidade". A dita tecnologia moderna gerou novas relações de poder e dependência, levando à pulverização das aldeias, ao enfraquecimento das lideranças, à destruição das matas, a diminuição da água nos rios e fontes, a diminuição da caça, da coleta e da pesca, o que resultou em fome. O povo Xavante, outrora altivo e auto-suficiente, tornou-se cliente dos programas de cestas básicas do governo. O trator passou a ser uma necessidade para o transporte entre aldeias, povoados e áreas de caça.
Na mesma época e região, o INCRA assentou milhares de famílias de pequenos agricultores do sul do país, em glebas de 400 ha de cerrado e campos arenosos de baixa fertilidade, solos totalmente inadequados para o cultivo intensivo de grãos. Esses agricultores estavam sob forte tensão social no sul, pois não tinham áreas suficientes para plantar e manter suas famílias. A maioria, se valia da enxada e do fogo para plantar em suas terras férteis e não tinham, portanto, experiência e domínio da mecanização e dos insumos modernos. Mesmo assim, receberam do Banco do Brasil, financiamentos para compra de adubos, agrotóxicos e tratores de grande porte para época. O resultado foi catastrófico, com intoxicação de trabalhadores, morte de animais e peixes, e falência econômica da imensa maioria desses agricultores. Eles perderam suas terras, maquinas, veículos e economias oriundos da venda de suas propriedade no sul, tendo que amargar a volta a vida de peão, de meeiros e de boias frias.

A quem serviu estas ações governamentais?
As propriedades falidas e desmatadas foram confiscadas pelo BB, postas a leilão e adquiridas por grandes fazendeiros a preços atrativos, para o semeio de braquiária e criação extensiva de gado.
As indústrias e comerciantes de insumos e maquinários inadequados para aquela realidade, não perderam um tostão, pois as vendas eram casadas com os empréstimos do BB. Nada se comentou ou resultou em responsabilização criminal e financeira dos técnicos e dirigentes do INCRA, pela concepção e implantação desses projetos de assentamento. As empresas de planejamento rural e agrônomos que atestaram a viabilidade técnica financeira de cada projeto frente ao BB ganharam altas somas de dinheiro e em nada foram penalizados pelo prejuízo dos agricultores. Grandes fortunas e carreiras políticas foram geradas pela corrupção, falta de patriotismo e desonestidade induzida pela ação pública.
A perda de altivez e autonomia de um povo não tem preço, a contabilidade se perde no tempo e nas gerações, e até hoje, economistas não mostraram sensibilidade e capacidade para calcular custos relativos à danificação do meio ambiente e a degradação da vida humana, causadas pela irresponsabilidade e pela incompetência.
Esses exemplos são alerta para necessidade de responsabilidade e competência para os que atuam e desejam atuar nas comunidades quilombolas.


Para desenvolver é preciso massa crítica

"A necessidade de garantir a sobrevivência dia a dia, pode gerar um enorme imediatismo, cuja versão mais cruel é a perda da capacidade de projetar, de sonhar, de ter futuro". Essas palavras de WANDA ENGEL, especialista em combate à pobreza, dão a dimensão do aniquilamento humano existencial a que esta submetido 15% da população brasileira em situação de absoluta indigência.
Pessoas que vivem apenas para suprir necessidades fisiológicas de sobrevivência tendem ao embrutecimento, a insensibilização, a desesperança, a desvalia e ao desamparo. Podem deixar de acreditar na própria capacidade, no merecimento ou na possibilidade de realização de uma meta, mesmo que tenham as capacidades para tal. Essa perda da crença de si mesmo, o despoder absoluto, pode levar a pessoa a colocar sua existência e sonhos futuros sob o controle de religiões fundamentalistas e messiânicas, de clientelismo político, de jogos de azar ou a quebra do contrato social.
Dentre os apartados brasileiros, uma maioria afro-descendente originaria das comunidades remanescentes de quilombos, vive a margem da sociedade e da assistência pública. Essa população sobrevive do extrativismo, da pesca, da coleta e da agricultura tradicional, valendo-se de ferramentas e conhecimento ancestral.
Em função do isolamento e desassistência publica, milhares desses brasileiros ainda não atingiram o primeiro degrau da cidadania, que é a posse de documentos como certidão de nascimento, carteira de identidade e CPF. A falta de crédito, infra-estrutura, assistência técnica e acesso aos serviços públicos, tornam as comunidades quilombolas, alvo permanente da fome e do êxodo rural. O desenraizamento de trabalhadores rumo as cidades causa desagregação familiar e comunitária, alem de expor a pessoa ao sofrimento, violência, marginalidade e a vida indigna nos cortiços, favelas, lixões e relento das ruas.

Como sair da miséria?
Vivemos um mundo onde as trocas de bens e serviços se dão pela moeda, e de alguma forma, a pessoa precisa desenvolver habilidades, serviços e produtos que despertem o desejo de outrem, e assim ter acesso a moeda, aos bens e  serviços inerentes a vida em sociedade.
É necessário criar condições para que os apartados da sociedade possam se descobrir merecedores de direitos e de sonhos, detentores de saberes e capacidades para produzir e participar da economia, e potentados para participar da política e transformar a sociedade.
Tendo todos os requisitos culturais, humanos e ambientais para se tornarem plenos na sociedade, não é concebível que, ainda hoje, os quilombolas estejam na situação de apartamento sócio econômico, próximo a que estavam quando deixaram a senzala escravocrata. Embora pobres e majoritariamente exclusos, os quilombolas constituem comunidades enraizadas e fortemente estruturadas culturalmente, haja visto a resistência mostrada ao longo da historia. Eles precisam apenas do suporte e apoio que acelere a compreensão do mundo e da sociedade que os rodeia, e ao mesmo tempo ofereça acesso às ferramentas e aos caminhos da inclusão.
Eles necessitam forjar suas próprias lideranças, capazes de realizar a interlocução com o estado e o restante da sociedade, reivindicar e defender direitos, organizar cooperativas, desenvolver diagnósticos, escrever projetos e planos de negócios, articular e buscar parcerias, e criar as condições estruturais para a produção, comercio, educação, saúde, comunicação e outros itens necessários para o desenvolvimento etno sustentado. Lideranças informadas e suficientes nas diferentes áreas do conhecimento, preparadas para estimular, facilitar e multiplicar a organização social, e potencializar a mentalidade empreendedora quilombola
Muitos segmentos do movimento social, como os deficientes, índios, homossexuais, mulheres e ambientalistas. já receberam apoio na formação e aprimoramento de suas lideranças, possibilitando visibilidade, reconhecimento, encaminhamento e avanços significativos na construção de direitos e cidadania.
Chegou o momento inadiável, para o Brasil encarar de frente as questões raciais, as desigualdades sócio econômicas e injustiças decorrentes do racismo histórico. A formação e capacitação de lideranças, técnica e intelectualmente preparadas para garantir o protagonismo político e desenvolvimentista dos quilombolas, é ação afirmativa e reparadora de grande valia. Para esse fim, devemos envolver o estado, o movimento negro, ongs, universidades e intelectuais comprometidos com a causa .

Um projeto de formação de lideranças
A integração e a inclusão de 4 mil comunidades quilombolas à economia e à vida nacional, exigirá a formação de pelo menos 500 lideranças. A garantia da ação prática dos futuros lideres, exigirá que a formação seja em boa parte realizada nas comunidades, com a realização de seminários, reuniões e articulações que levem a formação de cooperativa/associação e ou empresa comunitária, e plano de negocio em cada comunidade. A instituição de prêmios em dinheiro para cada plano de negocio formatado e cada projeto consolidado nas comunidades, animará a ação dos lideres e possibilitará a melhor relação custo/ beneficio social para os investimentos.
Os futuros líderes devem ser selecionados nas comunidades quilombolas ou entorno, dando preferência aos que tenham escolaridade mínima de segundo grau, potencial e interesse em novas aprendizagens, e que tenham ligação e interesse em trabalhar com etno desenvolvimento. É importante que os planos de negócios de cada comunidade contemplem áreas da produção de interesse das mulheres e dos jovens, possibilitando o desenvolvimento de forma democrática, e aproveitamento e otimização de talentos dos diferentes grupos. Neste sentido, é importante que uma parte desses líderes seja de mulheres e de jovens até 21 anos.
Para facilitar a participação de representantes das mais diversas regiões do país, o curso deve se utilizar de metodologia de ensino a distancia, com equipe coordenadora e tutores técnicos nas regiões de atuação dos alunos. Momentos presenciais serão importantes para o amadurecimento, fortalecimento e comprometimento do grupo com a missão e objetivos do programa.
A formação deve envolver a compreensão critica de diversas áreas, incluindo noções de historia e política da formação do estado brasileiro; história da resistência do povo negro; a importância política e econômica dos remanescentes de quilombos como patrimônio histórico e cultural do Brasil; leis que garantem direitos civis; titulação das terras e criminalização do racismo; leis ambientais e a limitação do direito de propriedade; representação das comunidades frente a ordem jurídica; órgãos públicos atuantes nas áreas de interesse quilombola; conceituação de desenvolvimento etno sustentado; mediação de conflitos; noções de agro silvo pastoreio ecológico, agro industrias, eco turismo e turismo etno cultural, verticalização e certificação da produção; planos de negócios; jogos e técnicas de dinâmicas de grupos populares.
É importante na formação do líder a concretização de projetos, concebidos coletivamente de baixo para cima nas comunidades. Neste sentido, será necessária a contratação de técnicos ou parceria com entidades universitárias, governamentais e não governamentais, com o objetivo de disponibilizar apoio técnico e tutoramento. O futuro líder será o fermento permanente da animação, organização e capacitação das comunidades para articular parcerias e viabilizar os requisitos necessários para o desenvolvimento.
A formação de lideranças pode ser determinante para integração acelerada dos quilombolas a vida nacional, dando ferramentas concretas para que eles mesmos possam protagonizar a formatação e implementação do próprio desenvolvimento.   
Valdo França - Eng º. Agrº. Foi consultor da Associação Nacional de Coletivos de Empresários e Empreendedores Afro Brasileiros, para assuntos de desenvolvimento sustentado, planejamento, projetos e gestão das áreas quilombolas no GTI QUILOMBOS do GF. Contatos(61)8144-8483 consultor.valdo@gmail.comskipe=valdofranca-
msn=consultor.valdo.saneamento@hotmail.com
Cursos e consultoria:
·"Comunicação, prevenção e solução de conflitos" para ongs, cooperativas, escolas, sindicatos, clubes, grupos familiares e empresas
·Planificação do Saneamento básico em fazendas, hotéis, residências e pequenas e medias cidades
·Agricultura sustentável, agro-floresta, prevenção e controle de incêndios florestais